O Naufrágio

29 01 2010

“O último a abandonar o barco é o Capitão”, é uma expressão reconhecida que tem colocado nos últimos anos um sorriso de ironia no rosto dos portugueses, provocando por vezes até uma gargalhada de angústia.

As pessoas que pensam o futuro apresentam no seu discurso pontos essenciais que devem existir para enfrentar a crise, muitas vezes, um dos primeiros tópicos, é a necessidade de haver um líder, um capitão, alguém que oriente. Em Portugal há poucas pessoas capazes de liderar.

Normalmente o poder de decisão está nas mãos de figuras que não inspiram confiança. A mudança não ocorre porque esses supostos líderes não dão o exemplo, pedem sacrifícios mas não estão dispostos a sacrificar-se. A demagogia é rainha. E como afirmou Tácito, historiador romano, “Os chefes são líderes mais através do exemplo do que através do poder”.

Para além da inteligência, um líder sabe motivar, não precisa de simpatia mas sim de respeito, pode ser duro mas nunca arrogante, disposto sempre ao diálogo mas sem nunca perder como objectivo o interesse do grupo. A liderança não é acertar sempre mas aprender com os erros. Nem todos podem ser líderes, mas para muitos bastava ter transparência e consistência, para poderem merecer a posição que têm.

Ainda há bons exemplos de líderes, mas existe um vazio de poder em muitas áreas da sociedade portuguesa. Nesse buraco negro de liderança, a corrupção de valores contamina tudo e todos, comprometendo um caminho de prosperidade.

A transparência de muitos dirigentes está manchada por esquemas corruptos e pela inércia, em que o proveito próprio é o lema geral. Senhores e senhoras vendem a alma por lugares confortáveis no negócio da troca de favores, em que há meia dúzia de direitos mas nunca deveres, nem responsabilidades.

Um líder não se vende, mas os vendidos multiplicam-se que nem ratos, e esses são sempre os primeiros a abandonar o barco. Mas a culpa é de todos, não há exigência, não há vontade, não se pode estar à espera de um salvador mas a estrutura relacional do animal social está dependente de figuras que se destaquem, com o carisma e força necessários para liderar os vários rebanhos, ovelhas que nunca devem perder o espírito crítico.

Em tempos de crise olhamos à procura de direcção e não vimos ninguém ao leme, só vimos o Capitão a fugir no salva-vidas com a arca do tesouro e a culpar as baleias pelo roubo. E no barco ficam os tripulantes, assustados a olhar o horizonte, a ver a tempestade cada vez mais próxima.

Amílcar Gomes
Aluno de Pós-Graduação


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