Circuito de Vila do Conde

14 07 2010

Anúncios




Acreditar sem Preconceitos e sem Ilusões

23 03 2010

Há 500 anos atrás ousamos olhar para o horizonte desconhecido e desafiamos as leis da imaginação. A repetição cliché dos Descobrimentos como a época áurea da nossa História não pode significar que estamos presos a um período de mais de cinco séculos de sonolência inventiva com explosões esporádicas de engenho.
 
Com vontade de ferro, velas impulsionadas pelo sonho e o coração enegrecido pelo medo, enfrentamos o novo. Foi com empenho que se partiu à descoberta, que se revelou uma parte do mundo da sombra da incerteza. Escrevemos a sangue um capítulo da biografia da humanidade. A coragem da renovação e da mudança ainda faz parte do nosso ADN, no entanto existe uma neblina que turva a percepção da alma lusa. Um sentimento de sado-luso-masoquismo, uma sensação de desconfiança e de miséria que os portugueses sentem pelo o que é seu.  
 
É com essa percepção negativa de si mesmo que o português vive. Pior que um Adamastor, um obstáculo externo, é esse velho do Restelo que faz parte de nós, esse buraco negro que se alimenta do nosso engenho.  Não necessitamos de acreditar como ovelhas cor-de-rosa orgulhosas da sua perfeição, mas como bravos comandantes, calejados pelo sal do mar, que enfrentam tempestades em nome da glória, com as suas naus construídas de suor e criatividade.

Não podemos deixar que o nosso sado-luso-masoquismo, de desprezar o que é português, enfraqueça a nossa capacidade de descobrir. Com as vozes roucas de hipocrisia é fácil apelar à inovação, mas o processo nada tem de simples. É num horizonte de dificuldades e ameaças que se tenta rumar em direcção a novas formas de olhar.
  
Num universo de possibilidades deixemos para trás a percepção negativa de ser português, essa força da gravidade que nos dificulta os movimentos. Com coragem e com a noção do erro existem ainda caminhos a explorar. Com a alma tingida de curiosidade devemos abraçar o caos do universo e partir à descoberta de oportunidades.

Amílcar Gomes
Aluno de Pós-Gradução





O Naufrágio

29 01 2010

“O último a abandonar o barco é o Capitão”, é uma expressão reconhecida que tem colocado nos últimos anos um sorriso de ironia no rosto dos portugueses, provocando por vezes até uma gargalhada de angústia.

As pessoas que pensam o futuro apresentam no seu discurso pontos essenciais que devem existir para enfrentar a crise, muitas vezes, um dos primeiros tópicos, é a necessidade de haver um líder, um capitão, alguém que oriente. Em Portugal há poucas pessoas capazes de liderar.

Normalmente o poder de decisão está nas mãos de figuras que não inspiram confiança. A mudança não ocorre porque esses supostos líderes não dão o exemplo, pedem sacrifícios mas não estão dispostos a sacrificar-se. A demagogia é rainha. E como afirmou Tácito, historiador romano, “Os chefes são líderes mais através do exemplo do que através do poder”.

Para além da inteligência, um líder sabe motivar, não precisa de simpatia mas sim de respeito, pode ser duro mas nunca arrogante, disposto sempre ao diálogo mas sem nunca perder como objectivo o interesse do grupo. A liderança não é acertar sempre mas aprender com os erros. Nem todos podem ser líderes, mas para muitos bastava ter transparência e consistência, para poderem merecer a posição que têm.

Ainda há bons exemplos de líderes, mas existe um vazio de poder em muitas áreas da sociedade portuguesa. Nesse buraco negro de liderança, a corrupção de valores contamina tudo e todos, comprometendo um caminho de prosperidade.

A transparência de muitos dirigentes está manchada por esquemas corruptos e pela inércia, em que o proveito próprio é o lema geral. Senhores e senhoras vendem a alma por lugares confortáveis no negócio da troca de favores, em que há meia dúzia de direitos mas nunca deveres, nem responsabilidades.

Um líder não se vende, mas os vendidos multiplicam-se que nem ratos, e esses são sempre os primeiros a abandonar o barco. Mas a culpa é de todos, não há exigência, não há vontade, não se pode estar à espera de um salvador mas a estrutura relacional do animal social está dependente de figuras que se destaquem, com o carisma e força necessários para liderar os vários rebanhos, ovelhas que nunca devem perder o espírito crítico.

Em tempos de crise olhamos à procura de direcção e não vimos ninguém ao leme, só vimos o Capitão a fugir no salva-vidas com a arca do tesouro e a culpar as baleias pelo roubo. E no barco ficam os tripulantes, assustados a olhar o horizonte, a ver a tempestade cada vez mais próxima.

Amílcar Gomes
Aluno de Pós-Graduação





Onde Fica o Haiti?

21 01 2010

Ao pensar no Haiti a palavra que de imediato me ocorre é Caos! Todos os dias nos chegam imagens do terrível drama que por lá se vive. Às mãos de uma Natureza, que parece roçar a crueldade (apesar de esta ser apenas característica humana), muitos foram os que pereceram… e a prova disso são os inúmeros corpos que jazem nas ruas, debaixo dos escombros, em valas comuns… Como bonecos abandonados, congelados na exacta fracção de tempo em que o sopro de vida os abandonou. E os sobreviventes, de olhos perdidos, vagueiam pelas ruas da cidade, em busca de uma normalidade que não voltará e que aparentemente nunca existiu… Os bens essenciais são escassos, as estradas encontram-se quase intransponíveis, a ajuda não chega a quem precisa, não há casa para onde voltar… É o pesadelo de acordar em Port-au-Prince, depois da tormenta… É a luta diária pela sobrevivência, que desafia da mesma forma crianças e velhos…

O resto do mundo também se abalou com este terramoto. Declarou-se estado de emergência e prontamente foram destacadas forças, enviados recursos humanos e monetários… todos se mobilizaram em prol daquele povo. Um pouco por todo o mundo gerou-se uma onda de solidariedade, mas por experiências anteriores vai chegar o momento em que o Haiti vai perder o interesse e tornar-se notícia passada. Aos poucos vamos regressando ao nosso dia-a-dia, fechados nas nossas “conchinhas”, aguardando a próxima catástrofe. Não interpretem mal as minhas palavras, louvo o trabalho e a dedicação de todos os que de imediato se prontificaram a ajudar. Mas não posso deixar de me questionar se realmente teremos o direito de sentir que a tarefa foi cumprida.

Não será nosso dever garantir o desenvolvimento deste país que sempre viveu em condições precárias? Onde termina a nossa responsabilidade face a este povo? Temos ou não respostas a dar à geração de crianças que crescerá à sombra desta imensurável catástrofe? Infelizmente, acabo por pensar que, como sempre, vamos acabar por adormecer tranquilamente no conforto das nossas casas… porque o Haiti é muito longe… porque as vozes dos que sofrem têm um comprimento de onda que não conseguimos captar realmente… porque as imagens da destruição ficam mascaradas nos ecrãs de televisão… porque não sabemos tomar como nossa a responsabilidade de lutar por um mundo mais justo, mais digno… qualquer que seja a localização geográfica em que nos encontremos.

Mariana Gregório
Colaboradora do IESF